Artigo 04/06/2019

Zé Lins do Rego, cronista esportivo

O escritor José Lins do Rego é autor de uma vasta obra ficcional, da qual se destacam seus romances sobre o ciclo da cana de açúcar. Contudo, também desenvolveu, desde muito cedo, uma constante atividade jornalística, atuando enquanto cronista, tanto em jornais da Paraíba, de Pernambuco, onde estudou direito no Recife, e de Alagoas, quanto do Rio de Janeiro, cidade onde estabeleceu residência a partir de 1935.

Uma das facetas mais interessantes da atividade jornalística de Lins do Rego foram as suas crônicas esportivas, quase que completamente dedicadas ao futebol, jogo pelo qual era irremediavelmente apaixonado, sendo torcedor mais do que confesso do Flamengo. De acordo com o levantamento do jornalista Marcos de Castro, e para que se tenha uma ideia da dimensão desse aspecto da obra do autor, Lins do Rego escreveu 1.571 crônicas para o Jornal dos Sports, entre 7 de março de 1945 e 20 de julho de 1957. A colaboração, que se dava por meio da coluna “Esporte e Vida”, com textos curtos e precisos, se encerrou apenas alguns meses antes de seu falecimento, ocorrido em 12 de setembro de 1957.

Lins do Rego demonstrava clara consciência acerca da importância que o esporte tinha na vida das pessoas, sabia que o rápido texto da coluna era uma forma de estabelecer um contato profundo com o público leitor. Como disse na crônica que abria sua colaboração no Jornal dos Sports: “A um escritor vale o aplauso, a crítica de elogios, mas a vaia, com a gritaria, as ‘laranjas’, os palavrões, deu-me a sensação de notoriedade verdadeira. Verifiquei que a crônica esportiva era maior agente de paixão do que a polêmica literária ou o jornalismo político”.

A fim de homenagear esse importante autor da literatura brasileira, que nasceu no dia 3 de junho de 1901, no Engenho Corredor, no município de Pilar, na Paraíba, reproduzimos uma de suas crônicas esportivas. Uma das mais sentidas, pois trata da derrota da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1950, disputada em casa. Como se pode perceber pelo texto, a literatura estava presente nas páginas mais corriqueiras dos periódicos, dando um sabor especial ao cotidiano. Nesse domínio, aliás, a seleção nacional já foi boa, haja em vista o rol de cronistas esportivos que passaram pela imprensa brasileira, a exemplo de Mário Filho, Nelson Rodrigues, Sérgio Porto e Carlos Drummond de Andrade.

 

A derrota

Vi um povo de cabeça baixa, de lágrimas nos olhos, sem fala, abandonar o Estádio Municipal como se voltasse do enterro de um pai muito amado. Vi um povo derrotado, e mais que derrotado, sem esperança. Aquilo me doeu no coração. Toda a vibração dos minutos iniciais da partida reduzidos a uma pobre cinza de fogo apagado. E, de repente, chegou-me a decepção maior, a ideia fixa que se grudou na minha cabeça, a ideia de que éramos mesmo um povo sem sorte, um povo sem as grandes alegrias das vitórias, sempre perseguido pelo azar, pela mesquinharia do destino. A vil tristeza de Camões, a vil tristeza dos que nada têm que esperar, seria assim o alimento podre dos nossos corações.

Não dormi, senti-me, alta noite, como que mergulhado num pesadelo. E não era pesadelo, era a terrível realidade da derrota.

18 de julho de 1950

In: REGO, José Lins do. Flamengo é puro amor: 111 crônicas. Seleção, introdução, atualização ortográfica de Marcos de Castro. Rio de Janeiro: José Olympio, 2002. p. 125.

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