Artigo 23/09/2019

O jogo das memórias

“Acho que as lembranças são também uma forma de castigo. E eu as carrego juntamente com as minhas culpas.”
Frase de Pedro Rodrigues de Almeida, narrador do romance Neve na manhã de São Paulo, de José Roberto Walker

Em 25 de junho de 1918, assinando como “Garoa”, um espantado Oswald de Andrade registrava no diário coletivo de sua garçonnière, obra intitulada O perfeito cozinheiro das almas deste mundo, que a temperatura em São Paulo estava “3 graos abaixo de zero!” Deixava expresso, também, que encontrara “a Morgada transformada em geléa”. Morgada era a aguardente que aquecia, naquele rigoroso inverno, os frequentadores dos 42 metros quadrados do apartamento da rua Líbero Badaró, número 67, 3º andar, sala 2. Aquele foi um dia marcante na vida dos paulistanos, assim como o foi para os produtores rurais do interior do estado, notadamente os cafeicultores, que viram suas plantações arrasadas por uma devastadora geada. No romance Neve na manhã de São Paulo, do jornalista e historiador José Roberto Walker, obra lançada em meados de 2017, essa gélida manhã é um ponto de virada, um indício claro de que a vida bem vivida da rapaziada da Líbero um dia iria se acabar.

O romance se estrutura como se fosse as memórias de um dos frequentadores da garçonnière, Pedro Rodrigues de Almeida, que assinava no diário como “João de Barros”. Foi ele, inclusive, o responsável por criar o curioso nome com que foi batizada a obra coletiva. Em tempo, explique-se: na saleta de entrada da garçonnière, havia um caderno de 33 centímetros de altura por 24 de largura, contando com 200 páginas, no qual os frequentadores do apartamento registraram, sob pseudônimos, entre 30 de maio e 12 de setembro de 1918, inúmeros trocadilhos, chistes, piadas e fatos do cotidiano. Dentre os convivas, além de Oswald e Pedro, contavam-se Guilherme de Almeida, Leo Vaz, Ignácio da Costa Ferreira (o desenhista Ferrignac), Monteiro Lobato, Menotti del Picchia, Edmundo Amaral, Sarti Prado e Vicente Rao. Havia uma única frequentadora, verdadeira musa do grupo: Maria de Lourdes Pontes, também conhecida como Daisy, Daisinha ou Miss Cyclone. Daisy era normalista da Escola Caetano de Campos, uma moça inteligente, arrojada, questionadora, arredia e de espírito moderno, que fascinava o grupo dos “gravatas” e mantinha uma relação amorosa com Oswald.

No início do romance de José Roberto Walker, cujo primeiro capítulo transcorre no dia 23 de outubro de 1954, a data do enterro de Oswald no cemitério da Consolação, o narrador-memorialista afirma que, “hoje, mesmo depois de tantos anos, ainda me lembro de tudo, tanto do que de fato ocorreu quanto daquilo que eu gostaria que tivesse acontecido mas que, afinal, nunca se realizou”. É na volta de trem para Tatuí, cidade onde Pedro morava e na qual tinha feito carreira como delegado de polícia, que começa a elaboração do projeto de suas memórias: “Enquanto o trem me leva de volta para casa, não posso evitar as lembranças. Dele, de quem me despedi hoje. E dela, de quem jamais consegui verdadeiramente me despedir”.

Os fatos que compõem o romance englobam um arco cronológico que vai desde os tempos em que Pedro conheceu Oswald no colégio até agosto de 1919, quando os dois personagens se afastaram. O cenário: uma São Paulo em acelerada transformação, marcada por conflitos e traumas, tais como a greve geral dos operários, cujo ápice se deu em julho de 1917, as mobilizações patrióticas pela entrada do Brasil na Primeira Guerra Mundial e o surto de gripe espanhola, no final de 1918, que deixou um lúgubre rastro de morte pela cidade. O eixo central da narrativa: a relação de amizade, amor e ciúme estabelecida entre o Daisy, Pedro e Oswald, sendo que este vive um efetivo processo de formação enquanto autor modernista.

Nesse sentido, um ponto alto do livro é o contraste entre o que foi Oswald de Andrade para a literatura brasileira, mesmo que os seus últimos anos tenham sido melancólicos, e a trajetória desse desconhecido Pedro Rodrigues de Almeida, figura que sonhava em ser escritor – no início do livro, o encontramos às voltas com um projeto de romance histórico sobre os estudantes da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, quando esta foi criada, na primeira metade do século XIX –, um dos mais assíduos frequentadores da garçonnière, em cujo diário deixou diversos registros, mas que ainda em 1918 foi ser delegado de polícia em Tatuí, onde passou o resto de sua vida sem escrever um único livro. José Roberto Walker, a partir de ampla pesquisa histórica e documental, se encarrega de corrigir a trajetória do delegado, transformando-o em narrador dessas fictícias memórias.

O romance de Walker, assim, é muito hábil em sua capacidade de dar corpo a um contexto histórico, a uma série de eventos que acabaram sendo fundamentais para a cidade de São Paulo e para o modernismo brasileiro. Não sem motivo, portanto, que a chave para a compreensão das lembranças de Pedro está em O perfeito cozinheiro das almas deste mundo e, principalmente, no livro de memórias que Oswald de Andrade publicou no fim da vida, Um homem sem profissão, obra da qual só teve tempo de escrever o primeiro volume, Sob as ordens de mamãe. É nos registros de João de Barros no diário da Líbero Badaró e na imagem que Oswald constrói acerca de Pedro que se percebe como pesava a sombra do passado sobre esse curioso delegado de polícia interiorano.

Essa, talvez, é a maior virtude do livro de José Roberto Walker: ter criado um romance a partir desse intenso jogo de memórias, no qual as lembranças de um personagem vão alimentando as do outro, com a realidade nutrindo a ficção, trazendo à tona lances e pecados do passado, vestígios de uma época que parece não aceitar a sua condição de tempo vivido, pois sempre quer voltar ao presente. Um jogo, indubitavelmente, misterioso e fascinante. Tão misterioso e fascinante quanto uma manhã de neve em São Paulo, ocorrida há pouco mais de cem anos.

Edição consultada

WALKER, José Roberto. Neve na manhã de São Paulo. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

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