Artigo 02/09/2019

O artífice incógnito

Jan Tschichold foi um dos mais célebres tipógrafos do século XX. Nascido em Leipzig, em 1902, estudou em Dresden e lecionou design e tipografia em sua cidade natal. Após ter vivido em Berlim e Munique, passou a praticar uma tipografia arrojada e moderna, chamada de “nova tipografia”, distante do tradicional modelo gótico alemão e próxima dos princípios da arte de vanguarda e da Bauhaus.

Por conta dessas inovações, chegou a amargar seis semanas de prisão, em um exemplo evidente de como as questões estéticas eram visadas pelo nazismo. Em 1933, fugiu para a Suíça, país em que viria a falecer, em 1974. Durante dois anos, viveu em Londres, onde foi diretor de arte da Penguin Books, casa na qual reformulou o projeto gráfico da coleção de bolso, um verdadeiro marco do mundo editorial.

Ao longo de sua vida profissional, Tschichold escreveu diversos textos sobre o seu ofício, nos quais defendia os princípios e ideias que norteavam a sua atuação. Acreditava que, como a tipografia estava diretamente ligada à forma da linguagem, ela pertencia a todos, e não podia estar sujeita a mudanças revolucionárias intempestivas. Quem lê domina um código, uma convenção, logo ,“não podemos alterar a forma essencial de uma única letra sem, ao mesmo tempo, destruir a conhecida face impressa de nossa linguagem e, assim, inutilizá-la.”

A boa tipografia, nessa linha de pensamento, é aquela que pode ser lida por todos. Mesmo que seja difícil definir padrões de legibilidade, os leitores se sentem profundamente incomodados quando a composição de um livro é mal feita, com tipos pequenos, manchas muito densas, margens irregulares. Daí porque Tschichold entendia que a mais nobre virtude de um texto era não ser notado enquanto tal, enquanto portador da linguagem, pois “a tipografia realmente boa deve ser legível após dez, cinquenta, mesmo cem anos e não deve nunca repelir o leitor.”

Acima de tudo, as concepções de Tschichold acerca de seu trabalho, que se dava entre a arte e a ciência, são verdadeiras lições de humildade: “a tipografia é serva, não senhora; o gesto correto é invariavelmente definido pela conveniência.” Para ele, os tipógrafos devem alimentar o desejo de anonimato, apesar do imenso serviço que prestam aos livros e leitores. Dessa forma, ao contrário de artistas gráficos, que sempre buscam novos meios de expressão e imprimem a sua marca pessoal nas obras, os designers de livros precisam se desfazer “completamente da própria personalidade” e devem ser servidores leais e fiéis da palavra impressa. Ou seja, “é sua tarefa criar um modo de apresentação cuja forma não ofusque o conteúdo e nem seja indulgente com ele.”

O compromisso dos tipógrafos, portanto, está na escolha da fonte bem ajustada ao texto, na projeção de uma página legível e harmoniosa, na garantia da clareza e do emprego correto de títulos, capitulares, versaletes, aspas e grifos. Eles não criam o texto, mas elaboram os meios de sua fruição, dão corpo a uma obra que já possui valor intrínseco. Nada disso significa, contudo, que os livros devam ser produzidos sem expressão ou ser feios. Pelo contrário, devem ser belos em sua simples perfeição.

Nesse sentido, Tschichold ressalta a importância de se pensar a tipografia a partir de tradições e convenções que remontam até às inovações da Renascença e à consolidação da forma do livro, que ainda hoje é a melhor: “o corpo retangular esguio e vertical, abarcando folhas dobradas alinhavadas ou costuradas no dorso, dentro de uma capa cujas seixas sobressalentes protegem as páginas aparadas.” Em sua opinião, as experimentações podem até ser fascinantes e divertidas para quem as realiza, “mas uma tradição duradoura não brota de experimentos. Isto só pode ser proporcionado pelo legado da verdadeira mestria.”

Em seus breves ensaios, Tschichold trata dos mais variados aspectos ligados à tipografia e ao design de livros, tais como o tamanho do volume – que deve priorizar a manuseabilidade e o acondicionamento em estantes, no mais das vezes seguindo a proporção áurea ou o in-quarto –, a composição de uma boa folha de rosto – “uma folha de rosto, o arauto do texto, precisa ser forte e saudável”, “não deve sussurrar” –, a proporção da mancha do texto na página, a largura das margens, o quadrantim no início dos parágrafos – uma solução que surgiu ao acaso, na Idade Média tardia, mas que se tornou indispensável para a organização das ideias e para a composição tipográfica –, o uso das reticências e travessões – elementos gráficos que portam sentido, muitas vezes utilizados inadequadamente, e que trazem complicações à composição tipográfica –, a ocorrência e eliminação de forcas e viúvas, a cor do papel e o formato das lombadas. Em nome da composição de bons livros, perfeitos em sua elegância e simplicidade, nenhuma nuance, por mínima que seja, nem mesmo a cor dos requifes, o uso de sobrecapas, cintas e fitas de marcação de páginas, parece escapar de seu amplo campo de interesse.

Em tempos de recursos digitais, que ainda não estavam ao alcance de Tschichold, ferramentas que permitem os mais inimagináveis arroubos de novidade e inovação, é sempre bom ouvir a voz de um artífice cujo maior desejo era passar incógnito. Um tipógrafo atento à tradição de seu ofício, um mestre que tinha plena consciência de que o futuro e as possibilidades criativas de sua prática dependiam, invariavelmente, do respeito pelo leitor e do estudo das obras dos mestres do passado.

Resumo de dez erros comuns na produção de livros, segundo Jan Tschichold:

  1.  Formatos desviantes para além das proporções 2:3, a Seção Áurea, e 3:4, o in-quarto.
  2.  Composição tipográfica inarticulada e disforme.
  3.  Páginas de abertura sem nenhuma capitular.
  4.  Carência de forma, consequência da imobilidade resultante do emprego de um único corpo de tipo.
  5.  Uso de papel excessivamente branco.
  6.  Capas brancas de livros.
  7.  Lombadas planas em livros encadernados.
  8.  Títulos verticais grandes em lombadas que são largas o suficiente para receber uma inscrição horizontal.
  9.  Nenhuma inscrição na lombada.
  10.  Ignorância do – ou descaso pelo – uso correto de versaletes, grifos e aspas.

Livro consultado:

TSCHICHOLD, Jan. A forma do livro: ensaios sobre tipografia e estética do livro. Tradução de José Laurênio de Melo. Cotia: Ateliê Editorial, 2007.

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