Crônica de um paraíso reencontrado
Artigo 26/08/2019

Crônica de um paraíso reencontrado

“Daqui até o final o leitor há de aprender, se quiser, coisas de peso; e eu ficarei com a glória de ter desbravado caminhos novos para os historiadores do futuro.”
Hilário Tácito, em Madame Pommery

José Maria de Toledo Malta foi um engenheiro civil nascido na cidade de Araraquara, em 1885, e falecido na capital paulista, em 1951. Formado pela Escola Politécnica de São Paulo, profissionalmente ganhou destaque na pesquisa e aplicação das técnicas de concreto armado, assunto acerca do qual escreveu obras importantes. Era versado, também, em latim e literatura francesa, tendo chegado, inclusive, a traduzir uma seleta de ensaios de Michel de Montaigne, autor que é uma de suas grandes influências.

Madame Pommery, o único texto literário que escreveu, foi publicado, em 1920, pela Revista do Brasil, prestigioso órgão de cultura então dirigido por Monteiro Lobato, de quem Malta era bastante próximo. O livro é, como se lê na abertura, uma “crônica muito verídica e memória filosófica” da vida da personagem-título. Já que a obra se mostrava nodal para a compreensão de diversos feitos históricos da Pauliceia, sendo muito bem documentada, a dedicatória destinava-se ao Instituto Histórico e Geográfico, à Academia Paulista de Letras e às demais sociedades pensantes de São Paulo.

Ressalte-se, e que desde já isso fique bem claro, que o narrador não suportaria, nem por ideia, que alguém tachasse o texto de “romance”, haja em vista que a sua obra “não é novela, nem conto, mas história verdadeira”. Hilário Tácito, esse é o nome do narrador e o que aparece na capa do livro, afirma ter feito longas “vigílias sobre desconformes documentos”, assim como “peregrinações e inquéritos aborrecidos.” O motivo dessa confusão entre fato e ficção estava, curiosamente, em uma das principais virtudes do livro: um sistema de narrativa que não se limitava a empilhar datas e rótulos em “prateleiras cronológicas”, como se o texto fosse um museu. Uma narrativa, portanto, fluida, na qual os personagens ficavam mais vivos e os fatos mais relevados.

Em linhas gerais, o livro conta a história de Madame Pommery, uma figura que foi fundamental para a “desbotucudização” da elite paulistana, tendo tido importância primordial em “nossa economia política, social e doméstica, no tempo de três lustros.” O fato é que a boêmia libertina de São Paulo jazia “no atraso, na ignorância, na balbúrdia, como nos tempos coloniais”. Para que se desenvolvesse e brilhasse a “vida airada do alto bordo”, foi preciso que um dia, depois de muita espera, chegasse à Pauliceia a sua estrela guia.

Da “pré-história” da personagem, sabia-se muito pouco, as informações eram incertas e desencontradas. Seu nome verdadeiro era Ida Pomerikowsky, sendo que “duas nações, a Espanha cavalheiresca e a Polônia das baladas, disputaram-se a glória de lhe ter sido berço.” A mãe fora noviça em um convento de Córdoba, instituição da qual escapara para se juntar a um judeu polaco que trabalhava como lambe-feras em circo de ciganos. Do encontro, nasceu a menina. Posteriormente, a antiga noviça abandonaria a família para seguir rumo próprio junto com um toureador de Barcelona. Como preceptora da jovem ficou uma cigana de nome Zoraida.

Aos quinze anos, Ida, rapariga salerosa, já sabia ler a sorte, sapatear, tocar pandeiro e castanhola, assim como lidar com ursos e praticar luta romana. Um dia, diante das intenções do pai de oferecê-la aos prazeres masculinos, armou um plano de fuga, levando consigo o “dote” de nove mil coroas oferecido em troca de sua virgindade. A partir daí, peregrinou por cidades europeias, subsistindo por meio do meretrício. Adotou o codinome que lhe tornaria célebre por conta da champanha Pommery, sua favorita e de sonoridade próxima à da raiz do sobrenome polaco. O embarque para a América do Sul, com sonhos de “fazer a América”, se deu em Marselha, cidade onde, já bastante decaída, trabalhava em cabarés do porto, pequenas “tascas de meretrício miúdo.”  Veio no navio Bonne Chance­ – “Boa sorte” ou “Sorte Boa”, em francês –, pagando o frete da viagem com certos serviços prestados a um marujo normando.

Mas, por qual motivo Madame Pommery escolheu ficar em Santos, e não no Rio de Janeiro, Montevidéu ou Buenos Aires? A resposta é das mais interessantes: durante a parada no porto paulista, viu ninguém menos que Zoraida. A cigana jantava, maritalmente e no papel de dama respeitável, com um “coronel”, homem proprietário de cinco fazendas, deputado, chefe político de Butucuara e personalidade muito influente em São Paulo. Para Pommery, ter topado com a cigana fora somente motivo de susto, mas a verdadeira descoberta fora a de seu acompanhante: “Este, sim! – Era um paradigma dessa casta nacional dos ‘coronéis’, que só esperava as artimanhas de uma antiga adestradora de ursos, para se constituir no mais engraçado circo de bufonerias”.

Dessa maneira, por conta do acaso, Pommery, com “trinta e cinco primaveras vicejantes”, “roliças enxúndias, quatro cançonetas realejadas, um fato de toureador e dois baús”, decide seguir para a capital do café. Começou por baixo, trabalhando nas casas de diversão já existentes na Pauliceia, nas quais os clientes se esbanjavam em cervejadas, haja em vista que o costume do champanha ainda não se estabelecera e que a cerveja era vendida “arvorada em bebida de gente fina.” Para Pommery, era “já impossível assistir indiferente à continuação de todos os erros e disparates que presenciava. Cumpria-lhe o dever apostólico de remodelar esta gentilidade, anunciando-lhe a Nova Lei do amor corrupto, feito limpo, decoroso e sublimado pelo batismo do Champanha.” Sabia que tinha encontrado o seu lugar e a sua missão: “se a Pedro Álvares Cabral estava guardada a glória do descobrimento do Brasil com as consequências de tamanho feito na Civilização Universal, à Mme. Pommery cumpria descobrir, em São Paulo, a pedra angular sobre a qual tinha de reconstruir todo o edifício da civilização indígena.”

Imbuída de tal missão civilizatória e contando com um cheque de seis contos conquistado junto ao Coronel Pinto Gouveia, Mme. Pommery “comprou a crédito os trastes, as alfaias, os aparelhos e petrechos necessários, e instalou-se, com tudo isso e grande brado, num vistoso e largo sobradão da Praça Paesandeu e canto da Rua D. João, que se levanta bem no alto da zona dos teatros e demais antros noturnos.” À porta principal do estabelecimento, fez pregar uma vistosa placa gravada com Au Paradis Retrouvé, “nome feliz e sugestivo, como estão vendo, que revela depressa e bem tudo o que eu não tenho dito sobre os apreciáveis dotes poéticos de Mme. Pommery.”

E foi neste “paraíso reencontrado”, meio palácio meio pardieiro, que Pommery estabeleceu o adequado consumo do champanha, a trinta mil-réis a garrafa, e o parâmetro da assistência profissional, a cem mil-réis, no mínimo. Os coronéis, em pequeno intervalo, aprenderam e ficaram convictos de que “pagar mais barato é ignóbil, e não beber champanha uma torpeza.” A partir daí, estava lançado o padrão civilizatório. Aos leitores resta somente acompanhar como Pommery, desbravadora nessa Pauliceia ainda selvagem, foi nobilitando “a profissão de marafona”, granjeando “lucro e importância, na ordem lógica e natural com que estas duas coisas se sucedem.”

No relato de Hilário Tácito, para além da história da personagem-título e de seu paraíso reencontrado, repleta de graça e de lances sobre a história de São Paulo nas primeiras décadas do século XX, também merece destaque a figura do próprio Hilário Tácito. O narrador, a todo momento, estabelece diálogos com os leitores, alguns muito provocativos:  “Ora, se o leitor deseja ir comigo até o cabo, é urgente que deixemos, de uma vez por todas, esses modos contrafeitos. Nada de caretas! – Sejamos francos, com lealdade e camaradagem.” Assim, caso alguém estivesse cansado das frequentes digressões do narrador, podia simplesmente passá-las por alto e seguir a meada dos causos. No final, todos se encontrariam. Entretanto, quem deixasse de ler as reflexões do narrador perderia algo da essência e da alma da história

Além disso, Hilário Tácito faz constantes citações de autores clássicos, sobretudo latinos e franceses. Com orgulhoso ar de esnobação, indagando-se: “Que haverá, por aí, que eu já não tenha lido?” O palavrório é tanto que, a certa altura, ele próprio não se aguenta, manda ao diabo todos os livros e autores que vem citando, e promete “contar as coisas sem mais rodeios eruditos, naquele estilo natural, singelo e pitoresco, que se aprende nas cartas das marafonas e nos melhores escritores”. Promessa que, naturalmente, não cumpre.

Da plêiade de autores citados, em mais de um momento, surge o nome de Machado de Assis, de cujos narradores dos romances maduros, a exemplo de Brás Cubas e Bento Santiago, Hilário parece ter aprendido muito bem as lições de sarcasmo, superioridade e desfaçatez. Afinal, nessa Botucúndia também chamada de Brasil, para falar do processo civilizatório da gente do “alto bordo”, haverá algo melhor do que um narrador debochado, erudito, provocador, esbanjando erudição? Um contador de histórias, em suma, imbuído de um humor hilário e… tácito?

 

Edição consultada

TÁCITO, Hilário. Madame Pommery. Comentário e notas de Eliane Robert de Moraes. São Paulo: Ática, 1998.

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