Artigo 10/06/2019

A longa morte de Camões

Quem ouviu dizer que em tão pequeno teatro como o de um pobre leito quisesse a fortuna representar tão grandes desventuras? E eu, como se elas não bastassem, me ponho ainda da sua parte; porque procurar resistir a tantos males pareceria espécie de desavergonhamento… E assim acabarei a vida, e verão todos, que fui tão afeiçoado à minha pátria, que não me contentei de morrer nela, mas com ela.

Apud: STORK, Wilhelm. Vida e obras de Luís de Camões. Lisboa: Imprensa Nacional/ Casa da Moeda, 1980. p. 728.

 

Se encerrava, dessa forma, aquela que foi, ao que se sabe, a última missiva escrita por Luís Vaz de Camões, uma carta enviada a seu amigo D. Francisco de Almeida, redigida já no leito de morte. Para entender o sentido da passagem, é preciso compreender o contexto histórico de Portugal, na segunda metade do século XVI. No ano de 1557, com a morte do rei d. João III, o trono de Portugal foi herdado por seu neto, D. Sebastião, que contava apenas três anos à época. Com isso, iniciou-se um período de regência, sendo que a educação do jovem ficou a cargo de seu tio-avô, o cardeal d. Henrique, antigo inquisidor-geral do reino, e de d. Catarina d’Áustria, sua avó, que também era tia de Filipe II, rei da Espanha.

 

Camões lendo Os Lusíadas para D. Sebastião, litografia de António Ramalho, entre 1893 e 1916. Biblioteca Nacional de Portugal.
Fonte: Wikipédia

Em 1578, o jovem D. Sebastião, já governando por conta própria, promoveu uma expedição militar contra os mouros do norte da África, que constantemente perpetravam ataques contra as possessões portuguesas na região. Apesar de ser uma inciativa polêmica, posto que os interesses imperiais lusitanos estivessem concentrados nas Índias e no Brasil, muitos membros da aristocracia portuguesa participaram da empreitada. Assim, no dia 4 de agosto de 1578, ocorreu a batalha de Alcácer Quibir, no litoral do Marrocos, cujo resultado foi a desastrosa derrota das forças portuguesas e o desaparecimento do corpo do rei, o que daria origem ao mito do “sebastianismo”.

Não havendo herdeiros diretos ao trono, o cardeal D. Henrique, já com a saúde bastante debilitada, assumiu o controle do reino até a sua morte, no começo de 1580. Dessa forma, a dinastia de Avis, que esteve à frente do reino português desde o século XIV e de todo o processo de expansão marítima, ficava sem herdeiros. Com o trono vago, o rei da Espanha e tio de D. Sebastião, Filipe II, unificou as duas coroas, dando origem à União Ibérica, uma situação que se prolongaria até 1640. Vitimado pela peste, Camões faleceu, na cidade de Lisboa, em meio a esse contexto, no dia 10 de junho de 1580. Daí porque falava, em sua última carta, que não só morria na pátria, mas junto com a pátria.

Essa passagem se tornou emblemática, quase mítica, e seria resgatada em célebres momentos da história portuguesa. Por exemplo: em 1825, Almeida Garrett faria dessas palavras o fechamento de seu longo poema em dez cantos, intitulado Camões. Era o momento inicial do Romantismo lusitano, e o resgate da memória do vate que cantou os descobrimentos se mostrava como algo fundamental. O 10 de junho, de tão emblemático, acabou se tornando feriado em Portugal, uma data ideologicamente disputada pelos governos do país, desde o final do século XIX. Criado em 1880, ainda durante a Monarquia, por conta do terceiro centenário de falecimento do poeta, desde 1977 é considerado o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. No meio tempo, durante o longo, autoritário e conservador regime de Salazar, o feriado era conhecido como o Dia da Raça.

No Brasil, Machado de Assis se utilizaria das últimas palavras do poeta no conto “O espelho”, de 1882, para indicar que a pátria, “com a qual disse o Camões que morria”, era uma das formas mais enérgicas, absorventes e exclusivas que podia assumir a alma externa dos seres humanos. De fato, no pequeno teatro formado pelo leito de morte de Camões, grandes desventuras foram representadas, alcançando épocas muito distantes daquele 10 de junho de 1580…

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