São Paulo, 1924, cenário de guerra
Artigo 08/07/2019

São Paulo, 1924, cenário de guerra

Em 5 de julho de 1924, um sábado, exatos dois anos depois do famoso episódio dos 18 do Forte de Copacabana – a mobilização já nascia marcada pelo signo da efeméride –, rebeldes do Exército e da Força Pública estadual, liderados pelo general Isidoro Dias Lopes e pelos irmãos Joaquim e Juarez Távora, ocuparam partes da capital paulista, que ficou atravessada por trincheiras e cercas de arame farpado. O movimento, que não tinha um programa rigorosamente definido, se fazia em oposição ao governo do presidente Arthur Bernandes, aliado das elites políticas do tradicional Partido Republicano Paulista (PRP). O objetivo era tomar o 4º Batalhão da Força Pública, na avenida Tiradentes, em meio ao bairro da Luz, e avançar sobre o largo do Palácio, o atual Pátio do Colégio, onde se concentrava a administração pública do estado. Depois de tomada a cidade, o simbólico bastião da política oligárquica paulista, os rebeldes seguiriam para o Rio de Janeiro, a capital federal.

O plano inicial dos revoltosos não vingou, o que fez a rápida tentativa de tomada de poder se estender por quase um mês de conflitos urbanos. Mais precisamente, foram 23 dias durante os quais a cidade esteve sitiada, sendo palco de conflitos entre rebeldes e tropas leais ao governo. As balas e obuses não preservavam os espaços da vida civil; residências, fábricas e escolas, a exemplo do tradicional Liceu Salesiano, nos Campos Elísios, localizado ao lado da residência oficial do governador do Estado, ou da Escola Politécnica, no Bom Retiro, ficaram na linha de fogo.

A população vivia um cotidiano de incertezas, desencontros e perigos. Estrondos de bombas e silvos de tiros podiam ser ouvidos em diversas regiões, sobretudo no centro, nas imediações do largo do Palácio. As colunas de fumaça dos incêndios passaram a compor o horizonte. Por toda parte, as fachadas e os postes estavam crivados de balas. Havia muita desinformação, já que os jornais deixaram de circular cotidianamente e não se encontravam fontes completamente confiáveis.

No dia 9 de julho, com a intensificação dos ataques perpetrados pelos rebeldes, o governador, Carlos de Campos, mesmo contando com o reforço de tropas federais, se retirou para uma estação da ferrovia Central do Brasil, no bairro da Penha, estabelecendo-se em um vagão adaptado até o final dos conflitos. Com a sensação de abandono da cidade por parte do governo e com as lojas fechadas desde o início dos conflitos, explodiu a fúria popular, resultando na ocorrência de saques a estabelecimentos comerciais. Além disso, muitas pessoas passaram a viver na situação de desabrigadas, pois suas casas tinham sido danificadas ou destruídas.

As tropas legalistas, atacando majoritariamente a partir do Leste, a fim de controlar a ação dos rebeldes, realizaram intensos bombardeios sobre a cidade, contando inclusive com aviões. Atiravam indistintamente e demonstravam pouco consideração para com a população civil, notadamente de bairros populares, como Brás, Mooca, Ipiranga e Cambuci. Blaise Cendrars, poeta modernista franco-suíço, que viera ao Brasil a convite de Paulo Prado e esteve em São Paulo durante parte do conflito, assim relatou os eventos que presenciou, sempre com a sua fascinante escrita entre fantasia e realidade:

Mal colocou sua artilharia em posição sobre as colinas que dominavam a cidade, o General Sócrates, comandante das tropas federais de cerco, desencadeou sobre a cidade aberta, da qual nenhum de seus 800 000 habitantes havia sido evacuado, um bombardeio à “alemã”. Soube aproveitar as lições da Grande Guerra europeia. Não tendo nenhuma catedral de Reims para demolir, Sócrates dava como alvo a seus canhões, ora um hotel reluzente de novo, ora uma bela fábrica moderna, ora um dos novos arranha-céus. Os obuses caíam em rajadas no centro da cidade, destroçando um bonde, mandando aos ares uma confeitaria, espirrando numa escola, explodindo numa praça ou num bar. Aviões dirigiam a operação, lançando bombas que caíam por toda a parte, e explodiam ao acaso.

A brutalidade e a truculência da ação governista, que parecia não medir consequências para derrotar os sublevados de Isidoro Dias Lopes, gerou pânico e descontentamento entre a população, que por vezes se via simpática aos rebeldes. Não que a ação dos militares tivesse fins de revolta popular, mas o descontentamento com a administração pública encontrava nela uma válvula de escape. Algumas situações geraram grande repulsa, como a transformação do pátio da Light, na Vila Mariana, à rua Domingos de Morais, em prisão, com os bondes servindo de cárcere. Encurralados e enfraquecidos, face a uma população desgastada, os rebeldes se retiraram de São Paulo na noite do dia 27 e madrugada de 28, embarcados em trens no sentido do interior do estado, o que, dali a pouco tempo, acabaria dando origem à famosa Coluna Prestes. Ficara para trás uma cidade repleta de destroços, com um saldo de milhares de feridos e centenas de mortos.

A Revolução de 1924 permaneceria gravada na memória da população e na história da cidade, não somente pela violência que sobre elas se abatera, mas também por ter sido o prenúncio das mudanças que ocorreriam no final da década, com a quebra da bolsa de Nova York, em 1929, que abalaria a economia cafeeira, e a revolução de outubro de 1930, que acabaria com o predomínio paulista na política nacional.

Referências bibliográficas

CAMARGOS, Marcia. Belle époque na garoa: São Paulo entre a tradição e a modernidade. São Paulo: Fundação Energia e Saneamento, 2013.

COHEN, Ilka Stern. Bombas sobre São Paulo: a Revolução de 1924. São Paulo: Editora UNESP, 2007.

SEVCENKO, Nicolau. Orfeu extático na metrópole: São Paulo, sociedade e cultura nos frementes anos 20. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

SEVCENKO, Nicolau. “São Paulo, laboratório cultural interdito”. In: Pindorama revisitada: cultura e sociedade em tempos de virada. São Paulo: Peirópolis, 2000.

TOLEDO, Roberto Pompeu de. A capital da vertigem: uma história de São Paulo de 1900 a 1954. Rio de Janeiro: Objetiva, 2015.

Compartilhe:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Contatos

oficinadeletras@oficinadeletras.net

(11) 99880.2590

Acompanhe nas redes sociais

Envie uma mensagem





Oficina de Letras - Todos os direitos reservados

Criação de sites: Criativito